O Público, a dança, a filmadora…

Ando questionando bastante a quantidade de pessoas no público que vejo sem rosto enquanto danço. Vejo um pescoço, e logo acima do pescoço uma filmadora ou um celular…  gosto tanto de olhar nos olhos…  a dança oriental chega tão pertinho, é tão quentinha, a mulher oriental tem tanto a dizer com seu olhar… 

Que fique claro que não condeno as filmagens, nem me incomodo quando me filmam. Aliás, vários vídeos me são enviados e retribuo todos com carinho e sorrisos, pois sei que isso é uma forma indireta de dizer: “levei um pouco da sua dança comigo”. E muitos destes vídeos publico para divulgação do meu trabalho, com bom retorno visual. Os vídeos são ótimos para a divulgação do dançarino, e todos os que utilizo vão com os créditos de quem filmou. Então, se filmar, me envia … rsrs… porém quem escolhe assistir a uma apresentação de dança pela filmadora, escolhe pelo distanciamento da dança. 

Sendo assim, considero necessário observarmos diferenças básicas: vídeo de dança não é dança, e sim vídeo didático ou vídeodança.  

O vídeo didático é excelente para o auto-aprendizado e auxilia o aprimoramento técnico. Existem excelentes vídeo didáticos no mercado, pensados para sua tela e seus estudos.

 Já a vídeodança é uma modalidade interessantíssima de expressão da dança inserida na modernidade, na tecnologia e na internet  e vem ganhando mercado desde o início dos anos 70. 

Segundo Spanghero, existem 3 tipos de vídeodança: 1) a filmagem em estúdio ou palco; 2) a adaptação da dança preexistente para o audiovisual; 3) as danças pensadas diretamente para a filmagem, onde dançarino e cameraman  “dançam” juntos. Luz, câmera e dançarino compõe juntos o trabalho, há “dança” nas trocas de imagens.  

Pra quem quer saber mais, deixo aqui uma explicação breve deste estudo:  “O primeiro tipo de prática nada mais é do que a gravação da coreografia original com uma ou mais câmeras sem que esta sofra alterações significativas. A câmera guia o nosso olhar para ver melhor a coreografia, com detalhes e distâncias que não veríamos na platéia do teatro, mas não promove um outro pensamento além do registro. O segundo tipo de prática entre imagem e dança é a adaptação de uma coreografia preexistente para a captura da câmera e o ambiente do computador. A terceira forma de relacionar dança e imagem é chamada, em inglês, de screen choreography: são as danças concebidas especialmente para a projeção na tela e o trabalho da equipe  está em promover imagens e luz em movimento, juntamente com o dançarino. São danças criadas para o corpo do vídeo e para o olho que se habituou a conviver com televisão, vídeo e cinema” (SPANGHERO, Maíra. A dança dos encéfalos acesos. São Paulo: Itaú Cultural, 2003). 
Assisto sempre ao RUBBERBANDance Group, e deixei aqui um vídeo que adoro deste grupo. 

Agora pensemos na dança, e aqui está o meu foco: a dança é totalmente efêmera. E as nossas improvisações de dança oriental, mais ainda. Elas acontecem somente naquele momento, aquela emoção e aquela troca com o público acontecerá somente uma vez. E acredite, se você está atrás deste filtro chamado câmera, você está mais longe da dança que está no aqui e agora. 

O  vídeo que sai de um celular, de um ângulo estranho, tremido, escuro, não levará o estudo técnico (até porque muitas vezes quem dança esquece-se da técnica e da coreografia para entregar-se a fluidez e emoção do momento) e também não levará a emoção e a efemeridade daquele momento único. Quem filma faz a escolha de ver uma dança velada.

Nos teatros e eventos grandes, existem profissionais que estão lá exatamente para filmar, eles estão trabalhando pra isso, convém então relaxar e aproveitar o momento. 

E pra retratar essa diferença entre filmar e envolver-se na dança, deixo logo após o videodança um vídeo meu, filmado por meu companheiro num evento em Campinas, organizado por Najima Anjum, com o querido cantor Tony Mouzayek. Deixei o marido lá, sentadinho na platéia e disse: “capricha, amor. É pra minha divulgação” . E ele, firmemente, respondeu: “pode deixar”.  A partir dos 4’15” a encrenca começou… após os 6’15” então, ai, ai… ele esqueceu de filmar e ficou curtindo o show com a câmera na mão. A tela perdeu o foco, eu sai da tela e ele não me acompanhou,  e assim ficou por mais de 2 minutos.  
Quando chegamos em casa, assisti ao vídeo e perguntei: “Amor, o que aconteceu?”. Meio sem jeito, ele respondeu: “Fiquei curtindo o show, a música estava tão bacana, você estava tão bonita… não dá pra curtir e filmar!”.  Sorri e postei assim mesmo, achei tão bunitinho…

É por essa e por outras que não consigo evitar, venho tecendo algumas críticas à esta era onde o self é maior que o Ser e o filmar é maior que o Estar, maior que o amoroso olhar, onde a única lente possível é a de contato. Muito contato… 

 Aysha Almeé

VídeoDança RUBBERBANDance Group

Show ao vivo com Tony Mouzayek