Eu, Tambor…

Sim, toco  e danço tambor… porque o coração foi o primeiro som que escutei no ventre de minha mãe… porque desde que comecei a dançar, minhas pisadas são orientadas pelo DUM… porque quando saio do ritmo (porque fui para a melodia, porque me perdi nas sensações fluidas de flautas e instrumentos ondulantes), a minha volta é o DUM…porque desde o dia que construí com minhas próprias mãos o meu tambor, meditei no silêncio ativo e forte das ações que puxam cordas e esticam o couro do animal… animal que, sagradamente, coloca o silêncio da sua morte nos toques que sensibilizam os ouvidos, os corpos, o som maior, a reverberação que fica e agita o ar…

toco tambor porque mãos que tocam tambor são mãos soltas, mãos que não seguram nada (nem conhecimento, nem carinho, nem raiva, nem amor, nem vontade de soltar)…. danço tambor porque quadris que batem tambor são quadris soltos, sensuais, libertos de qualquer repressão … e movimentos soltos são o antídoto do apego, e as batidas soltas voltam reverberadas na maior prova de que soltar é voltar reverberado, seja lá o que for… e som reverberado é movimento acontecendo lá dentro, vibrante, que só quem sente seu movimento “vê”…


Observo depois… a quietude reverberada que o silêncio deixa em tudo, … primitivo e verdadeiro som no fundo do meu ouvido, primitivas memórias de lugar sonoro… um lugar onde moram os meus avós!

Aysha Almeé