“Desconstrução do Olhar” na Dança do Ventre

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Estou usando um fato que me aconteceu para refletir sobre minhas expectativas em relação à Dança do Ventre e gostaria de  compartilhá-lo com minhas alunas, colegas de trabalho e com quem interessar possa.
 
É claro que omitirei nomes, por delicadeza e por entender perfeitamente o empenho dos meus contratantes em oferecer-me uma assessoria de venda e uma estada confortável e maravilhosa em sua cidade.  Também sou profundamente agradecida por esses cuidados.
 
Uma contratante liga-me hoje, eis a conversa:
 
– Aysha, gostaria de mudar seu tema de “Técnicas de Quadril” para outro tema.
– Claro, o que você deseja de mim?  Em que você acha que posso contribuir para seu grupo?
– É que o tema “Técnicas de Quadril” já é trabalhado há muito tempo, não é mais atrativo para marketing, as pessoas se interessam por coisas mirabolantes. Quero um tema que não tenha sido trabalhado aqui, algo novo.
– Bem – disse eu com certa surpresa- , o dia em que o tema “Técnicas de Quadril” não for atrativo para a venda de um workshop  de Dança do Ventre, vamos todos então dançar uma tarantella!
 
Com todo o meu respeito aos ítalo-descendentes, em dezessete anos de Dança do Ventre, isso foi novo pra mim.
 
A parte boa é que a pessoa do outro lado da linha é tão querida e foi tão espirituosa que deu uma gostosa gargalhada. E a conversa  seguiu com um bom humor interessante.
 
Isso fez-me pensar horas sobre os rumos dessa nossa arte querida.
 
Adoro as novidades e experimentações. Aprecio do folclore ao show-business,  sou a favor das “melancias, penachos e strass“. Adoro as linhas elegantes dos arabesques, piruetas,grand battement pas de bourrée misturados aos nossos shimies. Já dancei com minissaia e botas, roupas de aranha, calça jeans, já fiz pas de deux contemporâneos, aéreos… já fiz inúmeras fusões.
 
Creio que um espírito livre, ousado e criativo tenha a necessidade de experimentação, ainda que depois assista àquela experimentação e chegue a conclusão que foi uma inspiração somente daquele momento.
 
Porém o quadril… ah, o nosso quadril… esse centro que movimenta nossa dança, nossos medos, nossa sexualidade, nossa criatividade, nossa saúde, nosso brilho oriental… esse é a nossa base.
 
Creio que estamos passando por uma fase muito infantil do aprendizado, quem dá aula para criança sabe do que estou falando: elas não têm motivação própria, a mãe as colocou na sala de aula. Então, você fica lá tentando dar constantes estímulos às suas motivações com brincadeiras, você ensina um passo e quando ela está se cansando do treino disciplinado, você muda o passo, quer ela tenha aprendido ou não… elas não conseguem ficar  uma hora concentradas no seu aprendizado. A aula acaba, você tem que ensinar várias coisas, que serão treinadas posteriormente. E olha  que elas geralmente aprendem mais facilmente porque não tem os medos que podem acompanhar os adultos: medo do erro, medo do ridículo, etc…
 
Quem te colocou na aula de dança do ventre?  O  que te move a ir a um workshop?
 
A dança apresenta-se vazia de verdade e expressividade, pois a extrema necessidade de experimentar e sentir o corpo e o movimento é negligenciada pela falta de concentração, paciência e maturidade. Sequer falo da parte teórica e laboratórios de folclore, tão necessários aos estudos de quem quer dançar, pensar e sentir o mais próximo possível  uma dança da sua origem e função.
 
Um conceito oriental interessante é a “Desconstrução do Olhar” : é olhar a mesma coisa de várias formas, sob vários ângulos. A música clássica oriental nos oferece essa desconstrução: repete várias vezes a mesma estrófe. Aos ouvidos dos leigos, parece tudo igual e repetitivo. Mas ao ouvido da dançarina do ventre, na primeira estrófe tem um violino ao fundo, na segunda estrófe tem uns toques de percussão diferentes, na terceira muda a harmonia… e lá pela sexta repetição, ela dançou a mesma estrófe, porém com nuances que ela caprichosamente marcou pela música. E generosamente convidou seus espectadores a ouvirem com ela essas nuances. A dançarina, a música e o convite…
 
Da mesma forma que a estrófe é a mesma, o passo também pode ser o mesmo, feito de outro jeito, desconstruído e reconstruído sob uma nova dinâmica. Porque não explorar um passo básico, uma mistura de shimies ou movimentos sinuosos com o capricho e a paciência da desconstrução e reconstrução? Descendo, subindo, virando… o básico é genial. Uma leitura primorosa com um generoso movimento básico é um conforto ao corpo, um silêncio ao espectador. E esses movimentos já conhecidos, quando misturados e explorados ao seu extremo, deixam de ser básicos, viram movimentos e misturas personalizadas que conferem assinatura a qualquer dança.
 
Lembro-me da frase de Proust: “a verdadeira viagem do descobrimento não consiste em buscar novas paisagens, mas em possuir novos olhos”.
 
E também da frase de Picasso:  “Na realidade trabalha-se com poucas cores. O que dá a ilusão do seu numero é serem postas no seu justo lugar”.
 
E o justo lugar desse quadril generoso, ousado, vigoroso, tecnicamente trabalhado e sensível é aqui, na Dança do Ventre!
 
Aysha Almeé