Dança e Música Clássica Árabe (mise en scène)

Para falarmos de Dança Clássica Árabe precisamos, inevitavelmente, falar da música árabe, seus ritmos e os instrumentos que a acompanham, pois a dança (seja ela qual for) é determinada pelo acompanhamento musical.

A música não pode ser um pano de fundo, acompanhada por uma atleta que treinou horas a fio. É tarefa da bailarina, artista sensível e receptiva, expressar as emoções transmitidas pela música e destacar a qualidade do instrumento que sola, extraindo dele sua qualidade essencial.

Podemos nos enganar com o termo “música árabe”. Ritmos, instrumentos e  o modo como se canta  variam de país para país. Porém,  toda música árabe compartilha semelhanças. Uma delas é que dentro de sua estrutura formal, ela reteve do passado uma fortíssima qualidade na improvisação e em sua essência ela é altamente melódica.

É  comum uma bailarina escolher músicas grandiosas, de 7 a 10 minutos, quando quer fazer uma apresentação de excelente qualidade técnica e expressividade máxima. A esta música, chamamos aqui no Brasil de “clássica árabe”, e os músicos árabes fora do Brasil à chamam de mise en scène, uma expressão em francês que significa no cinema, “direção artística” ou “encenação”. Seria, então, a dança do ventre executada nos palcos, para grandes shows. 

A música clássica árabe é composta geralmente por grandes orquestras, ganhou uma textura mais rica, com instrumentos específicos ou grupos de instrumentos dominando certos trechos da música. E quanto maior a variedade dos instrumentos, mais fácil é criar uma rica sonoridade, e por consequência, uma rica dança. Os percussionistas produziram uma ornamentação mais complexa nos ritmos, e uma música que no passado era improvisada tornou-se mais estruturada. Quanto aos ritmos árabes, uma única oitava pode conter algo entre 18 e 22 notas com intervalos tão pequenos quanto à nona parte de um tom.

Por isso, a música clássica árabe nos oferece tantos momentos variados que nos possibilita diferentes interpretações e a utilização de inúmeras técnicas de dança, árabes ou não.  E com estas tantas variações, ouvir uma música clássica árabe é como embarcar em uma cinematográfica viagem.

A música clássica árabe é composta, basicamente, pelos seguintes momentos:

Introdução:  É de praxe não se dançar neste momento. É a hora em que os músicos se apresentam, a dançarina, fora de cena, concentra-se para entrar em cena, e o público espera (ansiosamente, espera) pela bela apresentação. Apertem os cintos, queridos tripulantes, a viagem vai começar…

Entrada em cena: ritmos rápidos e que pedem deslocamento, dinamismo da dançarina, a ocupação do espaço de forma elegante, e geralmente, altiva. A exemplos, o malfuf, ayub, karachi, entre outros. Arabesques, giros, piruetas, deslocamentos grandiosos ganham  a cena. Muitas dançarinas utilizam-se das técnicas do ballet clássico  para maior acabamento destes movimentos. É a apresentação da dançarina, do seu figurino, do seu corpo, do seu cheiro. Um convite generoso a uma viagem que está apenas começando.

Momentos cadenciados: ritmos cadenciados (geralmente um maqsoum) que pedem descontração e movimentos soltos, “macios”. Aqui, a dança pode ganhar pés no chão, sorriso, quadris reverberados, é um convite ao sabor da genuína dança do ventre. Uma vez ouvi de um músico que o maqsoum pede palmas descontraídas de quem está assistindo.

Taqsim/lentos: ritmos lentos acompanhados de instrumentos melodiosos (kanun, nay e flautas variadas, alaúde, acordeon, violino, e outros) convidam a dançarina a preencher o espaço com sinuosidade, flexibilidade, movimentos arredondados e braços suaves . A sutileza, doçura e a sensualidade dominam o ar. É um sutil convite a esquecer o mundo lá fora, como um longo suspiro num fim de tarde sob a brisa do deserto…

Folclore: a maioria das músicas clássicas árabes tem trechos de ritmos folclóricos inseridos nelas (Said, khalige, falahi e/ou maqsoum rápidos). É necessário (pelo menos o mínimo) conhecimento de dança folclórica para que esse momento ganhe movimentos específicos do folclore solicitado pela música. Descontração e irreverência são solicitados neste momento, a dançarina transporta-se, juntamente com o público, para uma pequena tribo onde homens e mulheres dançam despreocupadamente, pés em contato com a terra. Dançam para celebrar a vida.

Percussão:  técnica de quadril, movimentos marcados, destreza e velocidade, o “coração” da nossa dança: o quadril e as batidas dos tambores árabes (derbaki, dahola, daff, snujs, bendir  e tudo o que mais vier). A dançarina aqui preenche com segurança a percussão árabe.

Encerramento: geralmente com o mesmo ritmo e melodia do início (finalização melódica).  Novamente os deslocamentos grandiosos entram em cena, juntamente com o adeus e o agradecimento da dançarina ao respeitável público pela companhia à deliciosa viagem. 


Um encantador show de dança árabe utiliza-se da dança e da música para expressar-se, reunir pessoas, sentir e causar emoções. Desennrola-se como a arte islâmica que começa com um motivo central, e vai criando ornamentos, tecendo padrões complexos ao redor dele, para a construção de um momento oriental, místico e intenso.