Mowasharrat Andalussia (Dança Árabe Andaluz)

Artigo para a Revista Shimmie  (maio/2014)

É sempre delicado falar e escrever sobre folclore árabe, pois a dança folclórica, seja ela qual for, é algo tão presente na cultura e no cotidiano de um povo que ninguém se preocupou em escrever sobre ela, apenas vivenciá-la. Essa transmissão via oral dos costumes faz com que muitas informações se modifiquem ou até se percam no longo do tempo.

Quando estudamos folclore, pegamos um pedaço da dança e da história com um mestre, um pedaço com o outro e muitas vezes esses pedaços estão descosturados e até se contradizem. E creio que é este o brilho da dança folclórica, ser uma colcha de retalhos de estudos e possibilidades acrescidos da visão pessoal de quem está dançando.

A bailarina estudiosa de folclore é uma filósofa e pesquisadora nata, questiona tudo, pesquisa tudo, e não envergonha-se de falar: “descobri um outro aspecto disso!”

A mestra Faridah Fahmy tem uma frase interessante sobre interpretações de dança folclórica: “dançarina não faz folclore, faz uma alusão ao folclore, quem dança folclore é quem está lá, naquele local, cultura e época. Desde então, abracei meus estudos com mais afinco e liberdade de para acrescentar ao meu dedicado estudo a minha leitura, o meu toque. 

De todas as danças folclóricas árabes, a mais elegante e sofisticada é o Mowasharrat Andalussia, ou Dança Árabe Andaluz, estilo de dança surgido nos palácios na região da Andaluzia. 

Esta delicada dança só não deixou de existir completamente porque o renomado dançarino e coreógrafo egípcio Mahmoud Reda estruturou e classificou a dança e música daquela região e época, criando então uma sugestão de leitura para esta. Ele pegou os poemas da época da Andaluzia e a partir deles criou a música e a dança que executamos hoje.  

Desde o século VII a cultural árabe floresceu na Espanha. Muitas pessoas e culturas diferentes cruzaram o mar do Norte da África rumo à Espanha, muitas vezes escapando de invasões em seus países. Na maioria, eram grupos de Berberes, que também se assentaram na Sardenha, Ilhas Canárias e na Sicília. O termo berbere significa amazigh = povo livre, sempre aberto a novas idéias e religiões.

A música andaluza foi sofreu grande influência persa. Nesta época, o califa Harun el Rachid fez de Bagdá, de influência predominantemente persa, um centro de cultura árabe. Havia lá um músico muito talentoso chamado Zyriab (que além de músico era filósofo, matemático, astrônomo e responsável por introduzir a quinta corda do alaúde). Seu talento despertou o ciúme de alguns de seus professores, que, para se garantirem como melhores músicos da cidade, mandou Zyriab para a Andaluzia.

Lá, Zyriab ajudou na formação de escolas de música em Granada, Sevilha, Córdoba e Valência. Assim, os músicos se influenciaram mutuamente, e aos poucos, árabes e espanhóis criaram um novo estilo de música. Acredita-se que alguns instrumentos utilizados na música espanhola tenham sua origem em Bagdá e no Norte da África.

No ano de 750 aproximadamente, mais ou menos na mesma época de Zyriab, vários músicos e dançarinos foram expulsos de países árabes  devido ao Islamismo, que considerava a música e dança como entretenimentos nocivos às virtudes. “Música diminui a modéstia, aumenta a luxúria e solapa a virilidade. Faz o que as bebidas fortes fazem”, diziam os califas em vários países árabes. E foram todos para a região de Andaluzia, onde os grandes palácios os absorviam como atração e diversão.

Além da influência persa, berbere e árabe, a música andaluza sofreu também uma pequena influência chinesa, devido ao comércio feito na antiguidade na “rota da seda”.

A este estilo de música árabe deu-se o nome de Mowashah (no plural, mowashrrat), que consiste em uma poesia cantada, de grande habilidade poética na escolha das palavras, geralmente com ritmos elaborados, que visava provocar sensações auditivas delicadas e nobres.

“É semelhante à lapidação de um diamante”, disse certa vez o produtor musical Ali El-Khatib.

E a dança seguiu o mesmo rumo dos poemas e músicas da época, num estilo sofisticado, elegante, delicado, palaciano, com muitos giros, arabesques, piruetas e movimentos de braços suaves e graciosos acompanhando as melodias.

Inicialmente dançada apenas por mulheres, porém hoje já temos participações masculinas, a dança árabe andaluz é uma dança de corte. Hoje em dia, tornou-se a dança das cidades antigas, praticadas por mulheres que descendem das antigas famílias. A roupa utilizada chama-se algieres karakus, um vestido de veludo lindamente bordado e uma calça chamada serval. Também podemos usar delicados chapéus, roupas de duas peças com tecidos e véus esvoaçantes, véus que prendem no pescoço dando a sensação de asas ou pequenos lenços para enfatizar os movimentos das mãos. 

Muitas vezes o folclore não precisa limitar-se as normas e regras. Lembro-me de uma apresentação linda de Soraia Zaied aqui no Brasil de Dança Árabe Andaluz: ela usava um sapato de salto, uma mini-saia e um lindo top de mangas fofas com tarbouch (aquele chapeuzinho quadrado na cabeça) com véus que se assemelhavam a asas saindo do chapéu… uma música lindíssima e uma dança cheia de giros e arabesques… ela não “carregou” este folclore, apenas colocou um “sabor” andaluz no show, delicioso de ver, com uma interpretação muito pessoal de dança e de figurino.  

E munidos do lirismo e graciosidade que esta dança nos pede, preparar uma apresentação de Dança Árabe Andaluz é convidar-se a viajar no tempo e transportar seu público para o interior de um palácio antigo para apreciar a mais elaborada das músicas clássicas orientais, com a mais caprichosa dança, onde o fundamental componente desta viagem ocuparia o principal cenário: a sensibilidade.

Fontes:
– livro “Leon-O Africano” de Amin Malouf
– livro “La Danza Mágica del Vientre”, de Shokry Mohamed
– Texto cedido por Christina Schafer, retirado do seminário feito por Amel Tafsout (dançarina argeliana) na ocasião do MAJMA-2000, conferência sobre danças do Oriente Médio e do Norte da África.
– encarte do cd A Corda da Alma, de Sami Bordokan
– aulas, workshops, conversas e andanças …